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O VURDÓN Versão Brasileira |
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Carroções tradicionais dos Ciganos do Reino Unido ( cortesia da Universidade de Liverpool )
VURDÓN em
romanês ou romaní, a língua dos Ciganos, significa
"carroção".
É esse, de modo geral, o símbolo dos Ciganos. Mesmo daqueles
que há muito tempo abandonaram a vida nômade.
A esse povo são dedicadas as páginas deste site, que
contem:
Eu me chamo Sergio Franzese, nasci em Torino (Turim), Itália
no ano1958.
O meu primeiro encontro com os Ciganos foi há muitos anos atrás
quando, levado pela curiosidade, me aproximei deles para conhecer
de perto seus hábitos de vida.
Desde então, através de um contato constante, conheci os mil
aspectos de uma cultura que sobreviveu às adversidades da
história, percebendo o quanto são profundamente injustas as
razões do ódio e do desprezo que a sociedade dos gadjê (os
não-ciganos) frequentemente manifesta por esse povo.

Os Ciganos assim entraram a fazer parte da minha vida, não
como um objeto de estudo, mas como pessoas com as quais comecei a
compartilhar sentimentos, pensamentos e aspirações.
Por isso, mesmo tendo múltiplos interesses, dedico a maior parte
do meu tempo livre a atividades que desejam ser uma modesta
contribuição à causa desse povo.
O maior reconhecimento pelo meu empenho se dá pelo fato de que
muitos Rom e Sintos me consideram frequentemente como um deles.
Sou membro do Comitê Promocional do "Centro
de Estudos Ciganos" (Centro Studi Zingari - Romanó
Siciarimásko Than) e colaboro com outras associações e
organizações na Itália e no exterior.

No bairro gitano de Perpignan (agôsto de 1998)
Artigos,
relações e pesquisas:
Ciganos! Irmãos!
Estas páginas na Internet foram
escritas para divulgar aos gadjê que vivem na Itália algumas
informações sobre a vida dos Rom e dos Sintos. Conhecendo mais
de perto os Ciganos, eles talvez consigam enxergar além de seus
preconceitos, e até sejam mais acolhedores.
Mas estas páginas foram escritas também para os Rom e para os
Sintos, para que conheçam melhor sua história e suas
tradições, e se orgulhem delas.
Que Deus vos conceda saúde e sorte!
Rromále! Phralále!
Kalá lilá po Internet si
rramosardé pála e gadjé kaj beshén ánde Itália te den
vórba léntsa po rromanó trajo. Te von pindjarén maj but pe
Rroménde von kam primisarén e Rromén maj lashés mashkár
lénde.
Núma kalá lilá si vi pála e Rromá thaj e Sínturi, te
zhanén maj mishtó léngri histórija thaj kultúra aj te avén
maj zuralé ánde léngro rromanipé.
Te del tuménge o Del but baxt aj sastimós!
Rom! Phrále!
Kal lil an u Internet hi-le kerdé
te penél pren u rómano djibén ap u gádje ke vonéna áni
Italia. Jon dikén-le ap u Rom unt ap u Sínti fédar te djanéna
kon hi-le unt har hi-lo u rómano vélto.
Ma kal lil hi-le nína fir u Rom unt u Sinti, te djanéna fédar
léngri istória unt kultúra unt te avén zoralédar ánu
léngri romanipén.
Te déla tuménge u Báro Déval but baxt unt súnthajt
(sastibén)!

Com Juan de Dios Ramírez-Heredia, deputado gitano ao Parlamento Europeu (Barcelona, setembro de 1998)
Primeira Parte: Traços
históricos.
Os Ciganos contam em uma de suas lendas que no passado tinham
um rei, que guiava sabiamente o povo numa cidade maravilhosa da
Índia, chamada Sind. Ali o povo era muito feliz, até que hordas
de muçulmanos expulsaram os Ciganos, destruindo sua cidade.
Desde então foram obrigados a vagar de uma nação a outra...
Mas, como dissemos, trata-se de uma lenda.
As informações mais seguras sobre suas orígens foram obtidas
através de estudos linguísticos feitos a partir do século
passado.
A comparação entre os vários dialetos que constituem a língua
cigana, chamada romaní ou romanês, e algumas línguas indianas,
como o sânscrito, o prácrito, o maharate e o punjabi, só para
citar algumas, permitiu que se estabelecesse com certeza a
orígem indiana dos Ciganos.
Todavia a razão pela qual abandonaram as terras nativas da
Índia permanece ainda envolvida em mistério.
Parece que eram originariamente sedentários e que devido ao
surgimento de situações adversas, tiveram que viver como
nômades.
Segundo outra lenda, narrada pelo poeta persa Firdausi no século
V d.C., um rei persa mandou vir da Índia dez mil Luros, nome
atribuido aos Ciganos, para entreter o seu povo com música.

É provável que a corrente migratória tenha passado na
Pérsia, mas em data mais recente, entre os séculos IX e X.
Vários grupos penetraram no Ocidente, seja pelo Egito, seja pela
via dos peregrinos, isto é, Creta e o Peloponeso.
Àquele período remonta a denominação Zíngaros ou Ciganos. De
fato, a etmologia do nome Zíngaro ou Cigano é provavelmente
constituida pelo termo grego medieval athinganoi, isto é,
"intocáveis", atribuido a uma seita proveniente da
Frígia; era também o nome atribuido a magos, adivinhos,
encantadores de serpentes, ou seja, a um modo de vida próximo ao
dos Ciganos.
A recente descoberta de um documento permitiu saber que em 1378
um rei búlgaro teria cedido a um monastério algumas vilas
povoadas por Ciganos.
A chegada à Europa situa-se aproximadamente em 1417, e, dez anos
mais tarde, em 1427, foram constatados em Paris Ciganos guiados
por chefes que se faziam chamar duques e voivodos. De fato, para
serem bem acolhidos, diziam ser peregrinos provenientes do
Pequeno Egito (região do Peloponeso) donde a orígem do nome
Gitanos (transformação de Egipcianos) atribuido a eles após o
equívoco surgido com relação à sua proveniência.
Eles se diziam obrigados a vagar pelo mundo por sete anos como
penitência; afirmavam que haviam sido perseguidos pelos
Sarracenos e obrigados a renegar sua fé cristã. Os reis daquele
tempo - sempre segundo eles - fizeram com que se dirigissem ao
Papa, que lhes impôs uma penitência e lhes deu credenciais para
que fossem bem acolhidos onde quer que fossem.
Além das coisas que os Ciganos contavam para que fossem bem
tratados, sabe-se que a princípio o acolhimento foi bom porque o
caráter misterioso de sua orígem havia deixado uma profunda
impressão na sociedade medieval.
Porém, no espaço de alguns decênios, a curiosidade se
transformou em hostilidade, devido aos hábitos de vida muito
diversos daqueles que tinham as populações sedentárias. A
presença de bandos de ex-militares e de mendigos entre os
Ciganos contribuiu para piorar sua imagem; além disso as
possibilidades de assentamento eram escassas, pelo que a única
possibilidade de sobrevivência consistia em viver às margens
das sociedades.
Os preconceitos já existentes eram reforçados pelo
convencimento difundido na Europa que a pele escura fosse sinal
de inferioridade e de malvadeza...o diabo, com efeito, era
pintado de negro.
Os Ciganos eram facilmente identificados com os Turcos porque
indiretamente e em parte eram provenientes das terras dos
infiéis; eram, portanto, considerados inimigos da igreja, a
qual, além disso, condenava as práticas ligadas ao
sobrenatural, como a cartomancia e a leitura das mãos que os
Ciganos costumavam exercer.
A falta de uma ligação histórica precisa a uma pátria
definida ou a uma orígem segura não permitia que se lhes
reconhecesse como grupo étnico bem individualizado, ainda que
por longo tempo haviam sido qualificados como Egípcios.
A oposição aos Ciganos se delineou também nas corporações,
que tendiam a excluir concorrentes no artesanato, sobretudo no
âmbito do trabalho com metais.
O clima de suspeitas e preconceitos se percebe no florescimento
de lendas e provérbios tendendo a por os Ciganos sob mau prisma,
a ponto de recorrer-se à Bíblia para considerá-los
descendentes de Cam, e portanto, malditos (Gênesis 9:25).
Difundiu-se também a lenda de que eles teriam fabricado os
pregos que serviram para crucificar Cristo (ou, segundo outra
versão, que eles teriam roubado o quarto
prego, tornando assim mais dolorosa a crucificação do
Senhor).
Dos preconceitos se passou, aos poucos, a formas sempre mais
acentuadas de discriminação, até chegar a verdadeiras e
próprias perseguições.
Sabemos que na Sérvia e na Romênia foram mantidos em estado de
escravidão por um certo tempo; a caça ao Cigano aconteceu com
refinada crueldade e com bárbaros tratamentos. Deportações,
torturas e matanças foram praticadas em vários Estados,
especialmente com a consolidação dos Estados nacionais.
Sob o nazismo os Ciganos tiveram um tratamento igual ao dos
Judeus: muitos deles foram enviados aos campos de concentração,
onde foram submetidos a experiências de esterilização, usados
como cobaias humanas, com todo tipo de inacreditáveis sevícias.
Calcula-se que meio milhão de Ciganos tenha sido eliminado
durante o regime nazista.
Atualmente, os Ciganos estão presentes em todos os países
europeus, nas regiões asiáticas por eles atravessadas, nos
países do oriente médio e do norte da África.
Na Índia existem grupos que conservam os traços exteriores das
populações ciganas: trata-se dos Lambadi ou Banjara,
populações semi-nômades que os "ciganólogos"
definem como "Ciganos que permaneceram na pátria".
Nas Américas e na Austrália eles chegaram acompanhando
deportados e colonos; sucessivamente estabeleceram fluxos
migratórios para aquelas regiões.
Recentes estimativas sobre a consistência da população cigana
indicam uma cifra ao redor de 12 milhões de indivíduos. Todavia
deve-se salientar que estes dados são aproximados, vez que, na
ausência de censos, esses se baseiam em fontes de informação
nem sempre corretas e confirmadas.
Na Itália inicialmente o grupo dos Sintos representava uma
grande maioria, sobretudo no Norte; mas nos últimos trinta anos
esse grupo foi progressivamente alcançado e às vezes suplantado
pelo grupo dos Rom provenientes da vizinha ex-Iugoslávia e, em
quantidades menores, de outros países do leste europeu.
Na Itália meridional já estava presente há muito tempo o grupo
dos Rom Abruzzesi, vindos talvez por mar desde os Balcãs, cuja
permanência no território é notável pela sedentarização
análoga à dos Gitanos na península ibérica.
A hostilidade para com os Ciganos assumiu, no curso da história, múltiplos aspectos, passando desde tentativas de desaparecimento físico até a negação de uma cultura específica, à qual pertence, entre outras coisas, a vocação ao nomadismo.
Segunda Parte: aspectos
da cultura romaní.
É quase supérfluo
dizer que não existem e nunca existiram reis nem rainhas
dos Ciganos, assunto predileto de jornalistas levianos e
desinformados.
Através de um exame cuidadoso do comportamento social do
nômade se destaca que o elemento preponderante de sua
personalidade é caracterizado por uma forte tendência
ao individualismo. O que conta em primeiro lugar para o
cigano é a família, o núcleo composto por marido,
mulher e filhos. Estes últimos, na economia tradicional
de alguns grupos, representam uma notável fonte de
subsistência, através da prática de esmolar e da
leitura de mãos.
Os homens, atingida uma certa idade, são frequentemente
iniciados em outras atividades que consistem em
acompanhar o pai às feiras para ajudá-lo na venda de
produtos artesanais.
Além do núcleo familiar se coloca a família extensa,
que compreende os parentes com os quais sempre são
mantidas relações de convivência no mesmo grupo,
comunhão de interesses e de negócios, frequentes
contatos se as familías perambulam por lugares
diferentes.
Eis
abaixo um exemplo sucinto de classificação
da sociedade cigana
(tirado em parte do livro Mutation Tsigane, de
J.P.Liégeois)::
grupo > subgrupo> nátsija (nacionalidade) > vítsa (descendência, leva o nome do chefe da estirpe) > família > indivíduo
Nota:
Enquanto que entre os Rom a
classificação em "subgrupos" acontece com
base em identificação de tipo ergonímico
(denominação que traz orígem na profissão
tradicionalmente exercida), entre os Sintos e os Kalé os
subgrupos são geralmente designados segundo um conceito
de natureza toponímica (referindo-se a lugares de
assentamento histórico).
Diferentemente dos Rom, estes não conhecem outras
classificações de "nátsija" e de
"vítsa". Pode-se porém afirmar que o subgrupo
entre os Sintos e os Kalé na realidade corresponda à
"nátsja" dos Rom.
Com base nisso, o esquema de classificação social
desses dois grupos pode ser configurado do seguinte modo:
grupo > subgrupo (= nátsija)> família > indivíduo
Além da família extensa, entre os Rom encontramos a kumpánia,
ou seja, o conjunto de várias famílias( não
necessariamente unidas entre si por laços de parentesco)
mas todas pertencentes ao mesmo grupo e ao mesmo subgrupo
ou a subgrupos afins.
Como já dissemos, o nômade é por sua propria natureza
individualista e mal suporta a presença de um chefe: se
tal figura não existe entre Sintos e Rom, deve-se
reconhecer o respeito existente com os mais velhos, aos
quais sempre recorrem para dirimir eventuais
controvérsias.
Entre os Rom a máxima autoridade judiciária é
constituida pelo krisnitóri,
isto é, por aquele que preside a kris.
A kris é um verdadeiro
tribunal cigano, constituido pelos membros mais velhos do
grupo e se reune em casos especiais, quando se deve
resolver problemas delicados inerentes a controvérsias
matrimoniais ou ações cometidas com danos para membros
do mesmo grupo. Na kris podem
participar também as mulheres, que são admitidas para
falar, e a decisão unilateral cabe aos membros anciães
designados, presididos pelo krisnitóri,
que após haver escutado as partes litigantes, decidem,
depois de uma consulta, a punição que o que estiver
errado deverá sofrer.
Em tempos recentes a controvérsia se resolve ,em geral,
com o pagamento de uma soma proporcional ao tamanho da
culpa, que pode chegar a vários milhões de liras
(vários milhares de dólares) ; no passado, se a culpa
era particularmente grave, a punição podia consistir no
afastamento do grupo ou, às vezes, em penas corporais.
Os Ciganos
não representam, como já se salientou, um povo compacto
e homogêneo; mesmo pertencendo a uma única etnia,
existe a hipótese de que a migração desde a Índia
tenha sido fracionada no tempo e que desde a orígem
fossem divididos em grupos e subgrupos, falando dialetos
diferentes, ainda que afins entre si.
O acréscimo de componentes léxicos e sintáticos das
línguas faladas nos países atravessados no decorrer dos
séculos acentuou fortemente tais diversificações, a
tal ponto que Sintos e Rom podem ser tranquilamente
definidos como dois grupos separados, que reunem
subgrupos muitas vezes em evidente contraste social entre
si.
As diferenças de vida, a forte vocação ao nomadismo de
alguns, contra a tendência à sedentarização de outros
pode gerar uma série de contrastes que não se limitam a
uma simples incapacidade de conviver pacificamente.
Em linhas gerais se poderia afirmar que os Sintos são
menos conservadores e tendem a esquecer com maior rapidez
a cultura dos pais. Talvez este fato não seja recente,
mas de qualquer modo é atribuido às condições
socio-culturais nas quais por longo tempo viveram.
Quanto aos Rom de imigração mais recente, se nota ao
invés uma maior tendência à conservação das
tradições, da língua e dos costumes próprios dos
diversos subgrupos. Sua orígem desde países
essencialmente agrícolas e ainda industrialmente
atrasados (leste europeu) favoreceu certamente a
conservação de modos de vida mais consoantes à sua
orígem.
Não é possível, também em razão da variedade
constituida pela presença conjunta de vários grupos,
fornecer uma explicação detalhada das diversas
tradições. Todavia alguns aspectos principais, ligados
aos momentos mais importantes da existência, merecem ser
descritos, ao menos em linhas gerais.
Lembramos que antigamente era muito respeitado o período
da gravidez e o tempo sucessivo ao nascimento
do herdeiro; havia o conceito da impureza coligada ao
nascimento, com várias proibições para a parturiente.
Hoje a situação não é mais tão rígida; o
aleitamento dura muito tempo, às vezes se prolongando
por alguns anos.
No casamento tende-se a escolher o
cônjuge dentro do próprio grupo ou subgrupo, com
notáveis vantagens economicas. É possível a um Cigano
casar-se com uma gadjí, isto
é, uma mulher não cigana, a qual deverá porém
submeter-se às regras e às tradições ciganas. Vige
naturalmente o dote, especialmente para os Rom; no grupo
dos Sintos se tende a realizar o casamento através da
fuga e consequente regularização. Aos filhos é dada
uma grande liberdade, mesmo porque logo deverão
contribuir com o sustento da família e com o cuidado dos
menores.
No que se refere à morte e aos ritos a
ela conexos, o luto pelo desaparecimento de um
companheiro dura em geral muito tempo.
Junto aos Sintos parece prevalecer o costume de
queimar-se a kampína (o
trailer) e os objetos pertencentes ao defunto. Entre os
ritos fúnebres praticados pelos Rom está a
pomána, banquete fúnebre no qual se
celebra o aniversário da morte de uma pessoa. A
abundância do alimento e das bebidas exprimem o desejo
de paz e felicidade para o defunto.
Os Ciganos não
tem uma religião própria, não reconhecem um deus
próprio, nem sacerdotes, nem cultos originais. Parece
singular o fato de que um povo não tenha cultivado no
decorrer dos séculos crenças particulares em mérito à
divindade, nem mesmo formas primitivas de tipo
antropomórfico ou totêmico. O mundo do sobrenatural é
constituido pela presença de uma força benéfica, Del
ou Devél, e de uma força
maléfica, Beng, contrapostas
entre si numa espécie de zoroatrismo, provável resíduo
de influências que esta crença teve sobre grupos que em
época remota atravessaram a Pérsia.
Existem pois, nas crenças ciganas, uma série indefinida
de entidades, presenças que se manifestam sobretudo à
noite.
Quanto à religião, em geral os Ciganos parecem ter-se
adaptado no decorrer da história às confissões
vigentes nos países que os hospedaram, mas sua adesão
parece ser exterior e superficial, com maior atenção
aos aspectos coreográficos das cerimônias, como
procissões, peregrinações, próprias de uma
religiosidade popular ainda largamente cultivada no
âmbito católico.
Um sinal de mudança se dá pela difusão do movimento
pentecostal, ocorrida a partir dos anos 50, através da
Missão Evangélica Cigana, surgida na França.
Em seguida a isso, registram-se todavia profundas
lacerações no interior de muitas famílias, devido às
radicais mudanças de costume que tal adesão impõe e
que encontram explicação na natureza fundamentalista do
movimento religioso em questão.
Tais imposições muitas vezes acabam por induzir os
Ciganos a uma recusa de suas peculiaridades culturais,
ainda que dependa muito da capacidade de crítica e de
discernimento de cada indivíduo.
Terceira
parte: as perspectivas com relação às mudanças da cultura
romaní.
A cultura dos Ciganos, representada por um conjunto de
tradições e crenças, está em fase de constante mudança e, em
alguns casos, está se desagregando de maneira irreversível
perante a hegemonia da cultura da sociedade sedentária.
Existem, todavia, algumas mudanças que permitem prever um
caminho em direção a uma tomada de consciência difundida entre
Rom, Sintos e Gitanos.
No plano social e político, no decorrer dos últimos anos,
foi-se delineando um amadurecimento, que resultou no surgimento
de formas associativas e de movimentos de âmbito internacional.
Remonta à metade dos anos 60 a fundação da União
Internacional Romaní, seguida pelo surgimento de numerosas
Organizações Ciganas, que apareceram no decorrer dos últimos
30 anos defendendo a causa da minoria cigana e tutelando sua
cultura. Algumas delas contam com a participação conjunta de
Ciganos e gadjê, outras são geridas exclusivamente por membros
das diversas comunidades ciganas.
Encontramo-nos, portanto, diante de uma realidade complexa e às
vezes difícil de decifrar.
Em meio a situações de desagregação social e à perda de
identidade, surgem sinais contrapostos de esperança e de
renovação que testemunham uma rebelião contra um destino
amargo.
Todos nós somos chamados a defender o direito à diferença; uma
diferença que, no caso dos Ciganos, pode talvez conter aspectos
que para muitos são difíceis de entender e de compartilhar. É
preciso ter consciência de que tais formas de "desvio
social" não são peculiares à cultura romaní, mas
frequentemente, são consequência da secular rejeição oposta a
eles pelas sociedades circunstantes.
Os Ciganos constituem talvez o último desafio a um modelo de
vida voltada à especulação e ao cimento: o futuro deles
depende, em última instância, de cada um de nós. Eles
continuarão a existir na medida que a sociedade dos gadjê (não
ciganos) não ficar indiferente às suas ansiedades, a seus
problemas e às suas aspirações.

Praça do Povo Romanó em Barcelona (Espanha)
A literatura cigana "escrita" é formada em primeiro
lugar pela transposição por escrito da tradição oral.
Em seu interior se acha uma ampla produção poética, expressão
de sentimentos que nascem das experiências da vida cotidiana ou
do desejo de uma redescoberta dos valores tradicionais
fundamentais.
O processo de emancipação no plano social e político iniciado
nas últimas décadas colocou as bases para a formação de uma
elite intelectual cigana. A redescoberta de valores importantes,
entre os quais o uso da língua materna, tem, entre outras
coisas, induzido alguns Rom e Sintos, entre os mais sensíveis, a
um salto de qualidade na tradicional narrativa cigana,
favorecendo uma passagem da forma oral à forma escrita.
Um exemplo da sensibilidade que transborda do ânimo dos Rom e
dos Sintos nos é dada por estas poesias, compostas por vários
autores, pertencentes a grupos diferentes.
Cigano búlgaro nascido em 1929, durante uma parada da caravana às margens do rio Vit. A poesia a seguir faz parte de uma série de composições autobiográficas. Nesta ele narra o momento de seu nascimento, que coincide com a morte de sua mãe...
Nascimento no acampamentoNascí entre as velhas tendas, Nascí na miséria, entre os
campos Nascí num dia triste de outono Nascí, e minha mãe morria. |
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Rom xoraxanó
nascido em Banja Luka aos 11/2/1950, em uma família já
sedentarizada. |
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Rac saví ni bistaravSováv ánde mi kampína |
Uma trágica noiteDormia no meu carroção |
Ánde mol hi o chachipéÁnde mol hi o chachipé |
In vino veritasNo vinho está a verdade |
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Spatzo (Vittorio Mayer Pasquale) Spatzo na língua dos Sintos Estrekárja significa "passarinho, pardal", um apelido que nos traz aquele senso de liberdade frequentemente relembrada por este poeta que, no decorrer da sua vida, conheceu momentos de intenso sofrimento. Através de suas poesias, diante das adversidades da sorte, Spatzo demonstra que soube conservar intacta aquela alma cigana, feita de coisas símples e imediatas. |
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Liberdade
Nós Ciganos só temos uma religião: a liberdade.
Em troca dela renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à sua glória.
Vivemos cada dia como se fosse o último.
Quando se morre, se deixa tudo: um miserável carroção ou um grande império.
E nós cremos que naquele momento é muito melhor termos sido Ciganos do que reis.
Não pensamos na morte. Não a tememos, eis tudo.
O nosso segrêdo está em gozar a cada dia as pequenas coisas
que a vida nos oferece e que os outros homens não sabem apreciar:
uma manhã de sol, um banho na nascente,
o olhar de alguém que nos ama.
É difícil entender estas coisas, eu sei. Ciganos se nasce.
Gostamos de caminhar sob as estrelas.
Contam-se coisas estranhas sobre os Ciganos.
Dizem que leem o futuro nas estrelas
e que possuem o filtro do amor.
As pessoas não creem nas coisas que não sabem explicar.
Nós, ao contrário, não procuramos explicar as coisas nas quais cremos.
A nossa é uma vida simples, primitiva.
Basta-nos ter o céu por telhado,
um fogo para nos aquecer
e as nossas canções, quando estamos tristes.
Hom jek SíntoHom jek Sínto An u súni Dúnkel gibén Mit u tréni |
Sou um SintoSou um Sinto Nos meus sonhos Vida obscura Com as lágrimas |
U star nágliPenéla u parmísso: Jek vintákri ciáj dikjás, Jek kórkoro ciordásli, Unt Jov viás kiáke nágaldo. U stárto náglo ciás i
sinténgro gi Penéla u parmísso. |
Os quatro pregosDiz a lenda: Viu-os uma filha do vento Um apenas subtraiu, E Ele assim foi crucificado, O quarto prego comungou a dor Diz a lenda. |
Esta poesia foi escrita (em 1999) por mim, no idioma dos Sintos Piemonteses, com os votos de que eles não se esqueçam da língua de seus pais. Infelizmente sei que se trata de votos tardios, já que o abandono da língua materna se constitui enfim num processo irreversível nesta fase histórica. No nosso mundo tomado pelo capitalismo e pelo consumismo, as pessoas aprendem línguas somente se estas lhes são úteis. Talvez seja necessário começar a entender que se pode aprender (ou reaprender) uma língua para servir a ela, para fazer com que ela não morra, mas continue a existir como uma parte importante da identidade de um povo...
Cib marí
Nossa língua
Kamáva tu
cib marí.
Tu sal bravalí ta cororí
sar jamén.
Kántu sam bibaxtalé
ménge tu déssa le láu par te rovás,
kántu sam kontán
ménge tu déssa le láu par te sas,
kántu si-amén bróxa te garavássa men
tu, cib marí, déssa ménge ne vast.But pirdál ménca
pren sa le dromá do vélto,
sálas i jag da maré giljá,
ma kaná
andrén kalá dungalé pláse
kaj cidéna men le gadé
tu meréssa ne písla óni divés,
sar jamén.Se naavássa tu
nínge jamén sam naadé.
unén cavalé,
un ternibén,
maré puré Sínti
mukjén-le ménge
kajá ukár, gulí cib.
Na bistarás la,
sikavás la kaj maré cavé,
indarás la sémpar ménca
sar o kórkoro braválimo
ke si-amén.Amo você,
nossa língua.
Você é rica e pobre
como nós.
Quando estamos tristes
você nos dá as palavras para chorar,
quando estamos contentes
você nos dá as palavras para nos alegrar
quando temos que nos esconder
você, nossa língua, nos ajuda.Você viajou junto a nós
ao longo das estradas do mundo,
era o fogo das nossas canções,
e agora
nestes terrenos insalubres
que os gagês nos reservam
você morre um pouco a cada dia,
como nós.Se te perdermos
nós também estaremos perdidos.
Escutem, rapazes,
escute, juventude,
os nossos velhos Sintos
nos deixaram
esta bela e doce língua.
Não a esqueçamos,
ensinemos aos nossos filhos,
conservemos sempre conosco
como o único tesouro
que nos pertence.
| UPRÉ ROMÁ | LEVANTEM-SE ROM |
| Djelém djelém lungóne
droméntsa, Maladilém baxtalé Rroméntsa. Ah, Rromalé, katár tumén avén, E tsahréntsa, baxtalé droméntsa. Ah, Rromalé, Ah, Chavalé. Vi man sasí ekh barí famílija, Mudardá la e Kalí Legíja; Avén mántsa sa e lumnjátse Rromá Kaj phutajlé e rromané droméntsa. Áke vrjáma, ushtí Rromá akaná, Amén xudása mishtó kaj kerása. Ah, Rromalé, Ah, Chavalé. |
Viajei ao longo
de muitas estradas, E encontrei Ciganos felizes. Digam-me de onde vem Com suas tendas Nestas estradas do destino? Oh, Rom, Oh, jóvens Rom. Eu também tinha uma grande família, Mas a Legião Negra a exterminou; Venham comigo, Rom do mundo inteiro, Percorreremos novas estradas. É hora, levantemo-nos, É chegado o momento de agir. Oh, Rom, Oh, jóvens Rom. |
A lista a seguir foi elaborada em base aos
dados disponíveis no momento da atualização desta página
(fevereiro de 1998). Não se excluem dados inexatos ou
imprecisos, devido a informações não corretas ou a possíveis
variações ocorridas recentemente (mudanças de endereço e de
número telefonico, finalizações, etc.).
Por outro lado é oportuno afirmar que as diversas realidades associativas operam de modo autônomo e frequentemente exprimem sensibilidades diversas e que a inclusão nesta lista não empenha necessariamente o autor da página a um consenso sobre o conteúdo e sobre a finalidade pretendidos pelas várias associações.
Associazione "Bahrtalé Ciavré"
[Associação "Bahrtalé Ciavré"]
c/o V. Ahmetovic
80100 Napoli
Tel. 0338 / 8971411
Associazione "Cidamen"
[Associação "Cidamen"]
c/o A.D.M.
Via dell'Osservatorio 31/B
50144 Firenze
Tel. 055 / 452418
Fax 055 / 4250483
Associazione Culturale Rom
[Associação Cultural Rom]
Via Caldaro 11
39017 Appiano - Eppan (BZ)
Tel. 0461 / 654285
Associazione Italiana Zingari Oggi
(A.I.Z.O)
[Associação Italiana Ciganos Hoje]
Corso Monte Grappa 118
10145 Torino
Tel. 011 / 7496016
A.N.I.S.I.P.
(Associazione Nazionale Internazionale Spettacoli Itineranti
Parchi e Circhi)
[Associação Nacional e Internacional de Espetáculos
Itinerantes, Parques e Circos]
Piazza Vittorio 144
00185 Roma
Tel. 06 / 4462990
Associazione Rom "Rasim
Sejdic"
[Associação "Rasim Sejdic"]
Vicolo Savini
00147 Roma
Tel. 0338 / 2766056
Associazione "Romanó pála
Tetehára"
(Rom per il Futuro)
[Associação Rom para o Futuro]
c/o R.d.B-C.U.B.
C.so Marconi 34
10125 Torino
Tel. 0338 /5819416
Associazione "Sucar Drom"
[Associação "Sucar Drom"]
Via L. Guerra 23
46100 Mantova
Tel. 0376 / 360643
Fax. 0376 / 325440
Centro Culturale Zingaro "Thèm
Romanó"
[Centro Cultural Cigano "Thèm Romanó"]
Via Santa Maria Maggiore 12
66034 Lanciano (CH)
Tel. e fax 0872 / 714760
Centro di Documentazione Zingara
(Opera Nomadi)
[Centro de Documentação Cigana (Obra Nômades)]
Via Ivrea 47
10156 Torino
Tel. 011 / 2622302
Centro Studi Zingari
[Centro de Estudos Ciganos]
Via dei Barbieri 22
00186 Roma
Tel. 06 / 6833181
Cooperativa "Phralipé"
[Cooperativa "Phralipé" (Irmandade)]
c/o Opera Nomadi Lazio
c/o Scuola Media Statale "C.A.Cortina"
Via Carlo Alberto Cortina 70
00159 Roma
Tel. 06 / 4381933 - 43598509
Fax: 06 / 4386259
Missione Evangelica Zigana
[Missão Evangélica Cigana]
c/o Assemblee di Dio in Italia
Via Pasubio, 25-E
20063 Cernusco sul Naviglio (MI)
Opera Nomadi
[Obra Nômades]
Via della Guglia 69/a
00186 Roma
Tel. 06 / 6780996
Fax: 06 / 6780972
Romano Drom
Cooperativa di Solidarietà Sociale
[Romano Drom - Cooperativa de Solidariedade Social]
Via Carlo Marx 12
20153 Milano
Tel. e fax 02 / 98170365
Romano Komiteto ande Italia
[Comitê Cigano na Itália]
c/o Bruno Morelli
Via Genova 62
67051 Avezzano (AQ)
Tel. 0863 / 25462
Società Torinese "Romaní
Bucí"
[Sociedade Torinesa "Romaní Bucí"]
c/o Remsija Sulejmanovic
c/o Campo Nomadi Strada Arrivore
10156 Torino
Tel. 011 / 2423187
Solidarietà Nomade
[Solidariedade Nômade]
c/o Comunità di S.Egidio
P.zza S.Egidio 3
00153 Roma
Tel. 06 / 5895945 - 5806883
U.N.I.R.S.I.
(Unione Nazionale Internazionale Rom e Sinti in Italia)
[União Nacional e Internacional Roms e Sintos na Itália]
c/o Opera Nomadi Lazio
c/o Scuola Media Statale "C.A.Cortina"
Via Carlo Alberto Cortina 70
00159 Roma
Tel. 06 / 4381933 - 43598509
Fax: 06 / 4386259
U.N.P.R.E.S.
Ufficio Nazionale per la Pastorale tra Rom e Sinti
[Ofício Nacional para a Pastoral entre Roms e Sintos]
c/o Fondazione Migrantes
Via Aurelia 481
00165 Roma
Tel. 06 / 6640096 - 6640097
Fax 06 / 6620530